terça-feira, 18 de dezembro de 2012

37 dias


   Nunca pensei que algo pudesse mudar meu jeito de pensar, minhas verdades. Nunca pensei que um fato pudesse transformar um menino em um homem. Começei a me questionar isso depois que o destino me pregou uma peça.
   Era dia 27 de setembro de 2009, um domingo normal, como aqueles domingos que quando criança acordava cedo pra brincar na rua. Dormir e sonhar sempre foi um vício, mais eu sentia que nesse dia eu precisava acordar cedo pra aproveitar o momento, os amigos e a família. De tarde, o almoço em família já fazia parte da rotina do domingo. Sempre muito divertido o almoço reserváva muita alegria e as vezes discussões(qual família não tem seus momentos de crise não é). No final do dia um passeio com os amigos na mais famosa rua da cidade, e no meio de tanta diversão, algo inesperado aconteceu. No final de uma festa que toda semana acontecia na cidade, uma confusão tomava conta da rua na frente da festa, alguns "moleques" teriam acabado de cometer um assalto. Meus amigos e eu assustados e talvez com medo do desfecho dessa confusão, fomos embora.
   No caminho de casa, perto da rua onde eu morava, com um tiro pro alto e parando o carro com muita agressividade na nossa frente, alguns políciais nos abordaram e com violência nos fizeram deitar no chão como se estivessemos cometido um crime, eu não sabia oque estava acontecendo, não entendia o porque da agressividade, era meu primeiro "enquadro". Naquela hora o medo e a tensão tomavam conta de mim.
   Os polícias chegaram gritando e dando tiros pro alto dizendo "foram eles, esses maloqueiros ladrões !". Eu não entendendo oque estava acontecendo, me perguntava o porque das acusações, oque teria ocorrido, realmente eu estava confuso.
   Foi então que um dos políciais comentou com seus parceiros que o assalto na frente da festa onde estavamos foi cometido por nós. Todos ouviram e na mesma hora desesperados negaram tudo, eu fiquei surpreso com a acusação que me deixou ainda mais assustado.
   Diante das acusações, os polícias mesmo ouvindo-nos negar tudo, levaram meus amigos e eu pra delegacia pra prestar esclarecimento. As horas de tensão e medo começaram quando entramos em uma sala grande dentro da delegacia, agressões e ofensas tomaram conta da sala po uma hora e meia. Logo depois, em grupos de quatro pessoas, fomos conduzidos a uma sala com um enorme vidro espelhado em uma das paredes, do outro lado, cinco vítimas tantavam reconhecer os verdadeiros autores do assalto.
   Todos os meus amigos passaram pela sala e foram liberados logo em seguida, quando minha vez chegou, fui conduzido com mais três "moleques"(os autores do crime) para a sala. Depois de vinte e cinco minutos de tensão, sai da sala confiante de que seria liberado como meis amigos. Só que uma das cinco vímitas teria me acusado de ter participado do assalta, e mesmo eu negando desesperadamente fui levado a uma pequena cela onde ja ocupava alguns bandidos. 
   Minha mãe e alguns famíliares ficaram desesperados e perplexos com a notícia. A noite naquela cela, com aquelas pessoas ruins e frias, trficantes e ladrões dispostos a fazer tudo por dinheiro, foi tomada por muito medo e indignação.
   Já havia amanhecido e eu estava lá, no canto da cela, cansado de chorar e de lamentar aquela situação. Depois de algumas horas, fui conduzido até o fórum da cidade pra prestar depoimento pra juíza mais rude e arrogante daquele plantão. Novamente neguei participação no crime, mais mesmo assim a juíza decidiu que eu deveria aguardar o julgamento preso na Fundação Casa de São Paulo.
   A ordem foi passada aos políciais, que imediatamente nos colocaram dentro do "camburão" polícial, logo depois fomos levados a um presídio provisório em Bragança Paulista, onde ficamos por 2 dias sem comer e sem condições nenhuma de higiene.
   Após esses 2 dias, voltamos para Atibaia, onde ficamos por 3 horas. O dia já estava se pondo quando nos colocaram em uma van toda fechada com políciais fortemente armados, estavamos indo pra São Paulo pra ficar presos até o dia do julgamento que aconteceria a exatos um mês após o dia do arrastão.
   No caminho até a cidade de pedras, pensamentos confusos e distorcidos foram intensos pela viagem toda. Ao chegar na Fundação Casa, o medo do que poderia acontecer comigo foi inevitável, e as histórias que todos contavam sobre esses lugares, me deixava ainda mais desesperado. Os contos de vizinhos e amigos, de que pessoas eram estupradas e assassinadas em cadeias e presídios, não paravam de passar pela minha cabeça. Quando entrei naquele lugar escuro, cheio de escadas, portas e celas, meu corpo e minha mente já não respondiam mais e as piores sensações eram sentidas. 
   Logo na entrada, 2 funcionários do presídio me esperavam como se eu fosse muito perigoso, eles me levaram pra uma sala, me revistaram e me fizeram tirar a roupa e colocar o uniforme da Febem.
   Já era tarde, todos já estavam nas celas dormindo, quando cheguei tive que arrumar meu colçhão no chão duro e gelado e dormir junto com 40 pessoas que já haviam cometido os crimes mais barbáros como assalto a banco, sequestro, assassinato e estupro. Tinha até um garoto que matou com seu pai envenenado por causa de brigas de família.
   Minha primeira noite naquele lugar jamais será esquecida, com muito medo e com pensamentos negativos, meu sono foi interrompido por uma insônia que  durou 37 dias, eu não parava de pensar o que poderia acontrecer la dentro comigo, mais depois de um dia cansativo e estressante, acabei pegando no sono e dormindo um pouco.
   A forte luz do sol refletida por uma pequena janela daquele quarto acabou me acordando, todos já haviam levantado e estavam arrumando suas camas, levantei e começei a arrumar a minha também com dobras e movimentos iguais as que um dos funcionários havia me ensinado na noite anterior. Tudo lá dentro tinha hora certa pra aconrecer, hora de acordar, pra tomar banho, pra tomar café, pra ir a escola que ficava dentro do próprio presídio, pra almoçar uma comida feita por uma cozinha indústrializada da cidada, hora pra ir ao banheiro, pra assistir tevelisão, pra jantar e pra domir, raramente eu viamos a luz do sol e quando viamos, ela era ofuscada por uma imensa grande de proteção com cercas elétricas e farpadas que ficava na parte superior da quadra.
   No hora do banho, mais ou menos 6:30 da manhã, todos se dirigiam ao banheiro sempre com alguns funcionários armados escoltando e vigiando cada um dos nossos movimentos. Cada um tinha sua toalha e seu sabonete, enviados pelo governo do estado, todos tomavam banho juntos, em um espaço com 30 chuveiros ao lado e a frente um do outro, tinha que ser assim, olhando sempre pra frente, como se fosse a coisa mais normal do mundo tomar banho com bandidos e psicopátas. Sem falar que a água era fria, ela só ficava quente quando o calor esquentava o cano que distribuía água pelo prédio e era época de frio e chuva, então o banho quente era algo raro. Em 5 minutos tinhamos que tomar banho, se passasse desse tempo, um dos funcionários com uma vassoura nos agredia.
   Depois do banho, tomavamos um café que era enviado pela família e iamos pra escola em seguida. Como disse, a escola ficava dentro do presídio, e tinha como professor um funcionário público cursado e habilitado pra dar aulas, na porta da sala de aula ficava um homem com uma arma na mão nos observando muito atento com uma expressão agressiva.
   Todo dia eramos revistados 6 vezes, quando acordavamos, antes de depois da escola, antes e depois de irmos a quadra e na hora de dormir. 
   Na hora do almoço, tinhamos que arrumar e acrescentar cadeiras e mesas todo dia, porque sempre chegava um novo residente no presídio. A comida tinha algumas substâncias que deixavam o alimento maior e mais pesado, aumentando a massa muscular e a gordura do nosso corpo, dando a impressão que eramos bem tratados e alimentados la dentro.
   Após o almoço, iamos escovar os dentes e utilizar o banheiro, que era limpo e mantido pelos próprios detentos. O resto do dia ficavamos assistindo televisão porque dificilmente os funcionários nos levavam a quadra. Por volta de 22:00 horas da noite eramos levados as nossas celas que foram feitas pra ocupar 20 pessoas mais já ocupavam 43 detentos.
   Todos os dias essa rotina era mantida, e a cada dia a esperança de que o pesadelo sem fim acabasse aumentava. 
   Sábado, dia 3 de outubro, foi o dia em que vi minha mãe denovo depois de quase uma semana de sofrimento e saudade. Um abraço apertado e um choro incontido foram inevitáveis naquele momento, quando nos sentamos, minha mãe me contou do esforço que fazia pra me tirar dali e da força que meus amigos estavam me dando la fora. Depois de somente 40 minutos conversando e chorando juntos, ela obrigatóriamente teve que ir embora e só voltaria uma semana depois. 
   Muitas cartas de amigos e familiares chegavam toda semana, mais de tantas, uma carta mecheu comigo, era uma carta do meu irmão que não sabia ler nem escrever por consequências de algumas complicações no parto. A tal carta que tanto me emocionou, tinha alguns desenhos feito por ele e a seguinte frase: "Volta logo estou com saupe" (Saudade, ele escreveu errado essa palavra), essa única e aparentemente simples frase, foi oque me deu forças pra continuar lutanto com fé e acreditando que a justiça seria feita.
   Muitos dias se passaram e meu psicológico já estava abalado com tantos medos e indignações, e depois de muita espera o dia da audiência chegou, foi dia 27 de outubro, os polícias do Garra chegaram no presídio com armars e "camburões", eles me tranferiram junto com os verdadeiros bandidos para o fórum de Atibaia, ao chegar no local do julgamento, fomos conduzidos para uma cela que ficava dentro do prórpio fórum. Depois de muito tempo esperando a hora da audiência, dois oficiais de justiça chegaram e nos tiraram da cela e levaram-nos até a sala do Juíz. 
   No caminho até a sala, a tensão e o medo me deixavam cada vez mais nervoso e como consequência, eu só pensava no pior. Ao entrar na sala, me deparei com um monte de advogados, o juíz e com a minha mãe, que estava sentada ao lado do meu advogado, eu não pude abraça-la já que estava no meio de um julgamento.
   O juíz no fim da sessão, pediu mais uma audiência pra decidir oque faria comigo, essa decisão me deixou indignado e muito triste, eu teria que esperar não sei quanto tempo para ser ou não inoscentado.
   O dia da segunda e definitiva audiência foi marcado pro dia 4 de novembro, uma semana depois da primeira, aquela que definiria o meu destino. No dia 4 de novembro, às 17:45 da tarde, a audiência teve início, no meio da sessão, a única vítima a me acusar a 37 dias atrás de ter participado do assalto, disse perante ao juri ter se confundido e confirmou que eu não era um dos ladrões.
   Às 19:20 da noite o juíz bate o martelo e me liberta de um pesadelo que passou pela minha cabeça que seria uma realidade que duraria por muito mais tempo. 
   37 dias, de medo , indignação, emoção, apredizado e de realidade. Tudo começou no dia 27 de setembro, um dia que deveria ser um dia especial, que deveria ser um dia com histórias felizes e marcantes, e acabou marcado por um dia que a minha vida começaria a mudar e que as consequências dessa mudança me transformariam na pessoa que sou hoje, 27 de setembro, o dia em que o choro de um bêbe foi ouvido em um quarto de hospital, o dia que minha história começava, o dia em que eu nasci. 
                                        - Lucas Victor Moghetti Wohlers